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Publicado em 29/05/2008 por Zonaalvo Assessoria Esportiva

SUPLEMENTAÇÃO COM CAFEÍNA

Dificilmente atletas que faziam uso regular de cafeína através da alimentação convencional seriam prejudicados após a realização de teste antidoping, tendo em vista que seria necessária a detecção de 12mcg de cafeína/mL de urina e para tal deveria-se consumir de 600mg a 800mg de cafeína, 30 minutos antes do teste, o que equivale a aproximadamente 8 xícaras de chá de, ou seja, uma grande quantidade.

A cafeína (1,3,7-trimetilxantina) é uma das substâncias mais antigas e utilizadas do mundo com o objetivo de aumentar a potência física e mental. Entretanto, durante muitos anos, mais especificamente até janeiro de 2004, a sua utilização gerou muita insegurança em atletas submetidos constantemente a testes antidoping, tendo em vista que a equipe médica que compõe a Agência Mundial Antidoping considerava que o uso de cafeína deveria ser feito com moderação, pois altas doses colocariam o atleta de encontro com o “fair-play”, ou seja, os resultados esportivos obtidos poderiam resultar em significativa vantagem sobres os seus oponentes, além disso, esta substância também poderia estar associada a efeitos colaterais.

Na época, dificilmente atletas que faziam uso regular de cafeína através da alimentação convencional seriam prejudicados após a realização de teste antidoping, tendo em vista que seria necessária a detecção de 12mcg de cafeína/mL de urina e para tal deveria-se consumir de 600mg a 800mg de cafeína, 30 minutos antes do teste, o que equivale a aproximadamente 8 xícaras de chá de café (vide tabela abaixo), ou seja, uma grande quantidade. Desta forma, a utilização de doses superiores a 6,5mg/kg/dia poderia levar o atleta à ilegalidade. Entretanto, curiosamente, de acordo com alguns autores, não seria necessária a utilização de altas doses de cafeína para observar-se efeitos ergogênicos, uma vez que doses de 3,0 a 6,5mg/Kg/dia já seriam eficientes.

Um desses estudos foi desenvolvido por Anderson e colaboradores (2000). Os autores submeteram 8 remadoras a 3 percursos de 2000m simulados em remo ergômetro, cada qual separado por 7 dias, mediante a suplementação com 6mg/kg de cafeína ou 9mg/kg de cafeína ou placebo. Ao final, verificou-se que as concentrações iniciais de ácidos graxos livres foram maiores mediante a suplementação com cafeína e que a performance melhorou, tanto mediante a utilização de 6mg/kg (0,7%), quanto com a utilização de 9mg/kg (1,3%).

Mas afinal, o que significa o termo “ergogênico” já anteriormente citado na matéria sobre HMB?

O termo ergogênico é derivado de duas palavras gregas: ergon (trabalho) e gennan (produzir), portanto denota alguma substância ou artifício utilizado para a melhora da performance.

Fontes Quantidade de Cafeína(mg)
1 xícara (150mL) de café infusão 103

2g de pó de café instantâneo 60

2g de café descafeinado 3

Chá infusão 1 min 9-33

Chá infusão 3-5 min 20-50

1 colher de chá preto instantâneo 25-50

1 lata (350mL) de Pepsi 38

1 lata (350mL) de Coca-cola 45

1 barra (30g) de chocolate escuro ao leite 1-15

1 barra (30g) chocolate escuro meio amargo 5-35

1 xícara (150mL) de chocolate quente 12-15

Efeitos Ergogênicos propostos

A cafeína ao longo de muitos anos tem sido utilizada como um auxílio ergogênico, tendo em vista já terem sido apontados múltiplos mecanismos através dos quais ela estaria possivelmente associada à melhora da performance:

1 – pouparia glicogênio durante a atividade física, provavelmente, por elevar as taxas de ácidos graxos livres no sangue, ou seja, ao otimizar a utilização de gordura como fonte de energia, as reservas de carboidrato seriam poupadas.

2 – estimularia o Sistema Nervoso Central, aumentando nosso estado de alerta, melhorando a circulação sanguínea e o funcionamento cardíaco, o que poderia melhorar culminar na performance;

3 – facilitaria a liberação de cálcio dos seus locais de armazenamento (retículo sarcoplasmático) no músculo esquelético, estimulando a contração muscular. Este efeito poderia levar ao aumento do desempenho nas atividades de alta intensidade e curta duração, porém grande parte dos estudos demonstrou que a cafeína parece não aumentar a força muscular e/ou a potência anaeróbica, não sendo portanto, um recurso ergogênico muito recomendado para atividade de alta intensidade e curta duração;

4 – aceleraria o metabolismo, auxiliando no aumento da oxidação lipídica, verificada através do aumento de ácidos graxos livres no sangue, os quais estariam sendo liberados do tecido adiposo.

A pesar dos efeitos ergogênicos propostos acima, segundo Van Soeren e colaboradores (1993) os resultados ergogênicos da cafeína dependem do período no qual esta substância está sendo utilizada, portanto, para melhores resultados, alguns autores sugerem que seja realizada uma abstinência desta substância por 4 dias. Além disso, de acordo com Weir e colaboradores (1987), a dieta pré-exercício pode influenciar a resposta dos indivíduos em relação à ingestão de cafeína. Uma dieta rica em carboidrato realizada tanto alguns dias antes do teste, quanto na refeição pré-teste, pode servir para inibir o efeito da cafeína sobre a maior liberação de ácidos graxos livres no sangue.

Objetivando avaliar o impacto do consumo prévio de café sobre o efeito ergogênico da suplementação de cafeína pré-exercício, McLellan & Bell (2004) suplementaram 30 indivíduos saudáveis de 6 diferentes formas, com 3 semanas de intervalo, 1 hora e meia antes de pedalarem a 80% VO2 máx até a exaustão: 1 – café descafeinado + placebo; 2 – café descafeinado + cafeína (5m/kg); 3 – café (1,1 mg de cafeína/kg) + cafeína (5mg/kg); 4 – café (1,1mg de cafeína/kg) + cafeína (3mg/kg); 5 – café (1,1mg de cafeína/kg) + cafeína (7mg/kg); 6 – água + cafeína (5mg/kg). Os resultados revelaram que todas as doses de cafeína promoveram melhora do desempenho em comparação com a ingestão de placebo e que a ingestão prévia de café não afetou este efeito ergogênico.

Com base nas informações contraditórias expostas acima, parece que a ingestão regular de café, especialmente antes do início da suplementação com cafeína poderá exercer efeito ou não sobre a ação ergogênica desta suplementação, sendo as quantidades ingeridas uma das variáveis intervenientes.

Efeitos adversos

A cafeína é relativamente segura, porém as tolerâncias individuais variam e com isso podem existir efeitos colaterais. O consumo excessivo de cafeína pode provocar rubor facial, ansiedade, nervosismo, tremor das mãos, insônia, náuseas, dores no estômago e, até mesmo, arritmias cardíacas e perda de memória. Além disso, sua utilização durante muito tempo também foi desaconselhada, tendo em vista que poderia estar associada à desidratação. Desta forma, pergunta-se: a suplementação com cafeína realmente compromete a hidratação do atleta

Segundo Van Der Merwe e colaboradores (1998) não há alterações adicionais na temperatura corporal interna, no volume de suor ou diminuição do volume sanguíneo e urinário durante a atividade física com o uso da cafeína

Recentemente, Millard-Stafford e colaboradores (2007) realizaram um estudo para a verificação de bebidas contendo cafeína na composição, se estas prejudicariam a hidratação durante o exercício realizado em clima quente e úmido. Para tal, 16 ciclistas foram suplementados em 3 momentos, separados por 3 dias, ou com placebo ou repositor hidroeletrolítico ou repositor cafeinado (195mg de cafeína/L). As bebidas foram ingeridas antes (6mL/kg, sendo metade deste volume 10 min antes e a outra metade imediatamente antes) e durante (3mL/kg a cada 15 min) os 120min que pedalaram a 60-75% VO2 máx seguidos de 15 min de ciclismo até a exaustão. Ao final, os atletas haviam recebido cerca de 5,3mg/kg e observou-se que a freqüência cardíaca e a temperatura retal permaneceram semelhantes até os 15 min finais. Além disso, a taxa de sudorese, a produção de urina e as perdas de volume plasmático não diferiram. Entretanto, a intensidade do exercício foi superior no grupo que ingeriu a bebida cafeinada. Com base nos resultados obtidos, os autores concluíram que a bebida contendo cafeína é absorvida tão rapidamente quanto o repositor hidroeletrolítico e mantem a hidratação e as funções cardiovascular e termorregulatória, da mesma forma que o repositor hidroeletrolítico, mesmo quando ingerida em ambiente quente e úmido.

Desta forma, parece que a suplementação com cafeína não interfere de forma significativa do estado de hidratação, entretanto continua sendo prudente que cardiopatas e hipertensos procurem seu médico antes de iniciar a utilização da suplementação com cafeína.

Um dos estudos que deixa como conclusão este tipo de alerta foi desenvolvido por Astorino e colaboradores (2007). Os autores observaram um aumento significativo da freqüência cardíaca (FC) a da pressão arterial (PA) após a suplementação com cafeína em 22 homens acostumados a realizar o treinamento contra-resistência. Para obterem tais resultados a amostra recebeu, com 1 semana de intervalo, ou placebo ou cafeína (6mg/kg), sendo que, neste caso, deveriam estar sem realizar ingestão de cafeína a, pelo menos, 48h. Neste estudo a FC e a PA foram mensuradas antes e depois de realizarem múltiplas repetições, a 60% de 1 repetição máxima, no supino barra e no leg press, até a exaustão.

Após a leitura desta matéria espera-se que indivíduos saudáveis e praticantes de atividades físicas aeróbicas possam decidir se vale ou não a pena utilizar a suplementação com Cafeína, lembrando que a decisão deverá ser pautada especialmente na busca por mais informações científicas a respeito e também no relato de atletas mais experientes, mas será que atletas possuem significativo conhecimento e experiência com a utilização da suplementação de cafeína? Desconhecemos um amplo levantamento a respeito, feito exclusivamente com atletas brasileiros, entretanto, em 2007 foi publicado um estudo realizado por Desbrow e Leveritt. Os autores entrevistaram 140 triatletas (105 homens e 35 mulheres) de 16 paises que participaram de competições de longa distância (Ironman). Após a análise dos questionários verificou-se que a grande maioria dos atletas (73%) acreditava que a cafeína seria um efetivo recurso ergogênico para a melhora da performance e da concentração (84%), entretanto chamou a atenção a origem da suplementação: auto-prescrição (16%), indicação de amigos (15%), informações obtidas através de magazines (13%) e de revistas científicas (12%). Além disso, mais da metade dos atletas (53%) não era capaz de relatar qual seria a quantidade de cafeína necessária para auxiliar na melhora da performance e poucos efeitos colaterais foram relatados, sendo o aumento da freqüência cardíaca e do débito urinário os mais freqüentes.

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