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Publicado em 08/05/2008 por Zonaalvo Assessoria Esportiva

Joanna Maranhão

Aos 16 anos, a nadadora Joanna Maranhão tornou-se destaque no cenário nacional conquistando a medalha de bronze nos 400m medley e garantindo vaga para os Jogos Olímpicos de Atenas-2004. Na Grécia, obteve uma impressionante classificação para a final e tornou-se a principal esperança de resultados da nova geração nas piscinas brasileiras. Depois disso, porém, a pernambucana encarou uma espiral de acontecimentos, que culminou em uma crise de resultados cuja superação começou apenas no ano passado.

Passado o momento mais tormentoso, Joanna revela com exclusividade à Gazeta Esportiva.Net que sua queda não teve razões apenas técnica. Nesta conversa direto da França, a nadadora confessa ter sido molestada nos primeiros anos no esporte e admite que o longo processo de superação do trauma foi uma das etapas mais difíceis antes de seu renascimento nas piscinas. “Mais cedo ou mais tarde, eu iria mesmo contar esse episódio e assim as pessoas entenderiam melhor. Hoje, eu vejo que o que passei foi para me tornar mais forte e servir de exemplo para outras pessoas”.

Em busca de índices para os 200m e 400m medley, a atleta trancou recentemente a faculdade e passou a se dedicar integralmente aos treinos. Com ajuda da família, colocou a mão no bolso e bancou uma viagem para Font Romeo, na França, ao lado de Fabíola Molina, Diogo Yabe e Gabriel Mangabeira, para fazer um treinamento de altitude, que termina segunda-feira.

Para atingir seu objetivo, Joanna abraçou um programa multidisciplinar com acompanhamento de nutricionista e trabalhos específicos de musculação. São treinos diários em dois períodos com uma folga semanal, sendo duas horas em média na piscina. A musculação é feita três vezes por semana desde o ano passado.

Os resultados já começam a aparecer no corpo e nas piscinas, desde o ano passado, sua recuperação tem sido efetiva. Nos Jogos Pan-americanos, em julho, terminou na quarta colocação dos 400m medley (4min47s54) a oito centésimos do título, mas bem longe do índice olímpico (4min45s08). Cinco meses depois, no Torneio Open, ficou a apenas um centésimo da marca estabelecida como classificatória para Pequim.

Para Joanna, chegar aos Jogos chineses terá um sabor bem diferente de 2004, quando obteve a marca quase sem querer. “Conquistei o índice para Atenas de uma forma tão natural: nadei a final do Pan de 2003, fui bronze e peguei o índice. Tudo muito rápido. Acabei não dando o devido valor. Dessa vez, estou tendo de abrir mão de várias coisas para conseguir. Tô ‘ralando’ mais, é uma outra situação”, diz satisfeita.

Joanna dá a primeira cartada pela classificação no Campeonato Sul-americano, de 12 a 16 de março, no Clube Pinheiros, em São Paulo. Depois disso, o Troféu Maria Lenk, em maio, é a última chance. Mas a pernambucana quer resolver a situação na capital paulista, apesar de reafirmar que o local não é dos mais adequados para a empreitada.

Gazeta Esportiva.Net – Você está bancando o treinamento na França do seu bolso, certo?
Joanna Maranhão – A viagem saiu do bolso da família. Todo mundo me ajudou porque além dos custos serem altos, fomos surpreendidos por uma cirurgia do meu tio que está na UTI há um mês. Os gastos triplicaram e minha mãe, que é médica, ficou com ele o tempo todo e não trabalhou boa parte do mês. Então, eu e meu irmão mais velho cuidamos da casa e das contas, foi um mês difícil. Todos ajudaram a custear a viagem, e eu agradeço muito por isso. Quando conseguir o índice, vai mais do que nunca ser uma conquista de todos.

GE.Net – Como seu técnico (João Reynaldo, o Nikita) encarou a idéia de você treinar na Europa?
JM – A idéia foi minha, porque de inicio ele não estava muito de acordo não. Eu soube que a Fabíola Molina, o marido dela, Diogo Yabe, e Gabriel Mangabeira viriam e pensei que seria uma boa pra mim focar mais nos treinos, fazer uma preparação de base na altitude pra quando voltar pra Recife estar em boa forma física e tentar o índice para Pequim no Sul-americano. Foi um sufoco convencê-lo porque ele nunca me deixa sozinha e não pôde vir. Mas hoje, ele viu que foi o melhor pra mim e está muito satisfeito com os resultados dos treinos.

GE.Net – Quais melhoras você já percebeu?
JM – Eu já me sinto em boa forma física, os exames de sangue deram uma taxa de hemoglobina alta e isso significa que o objetivo do treinamento foi alcançado. Eu estou treinando só há um mês e já estou conseguindo tempos no treino melhores que no ano passado. Isso me motiva muito pra melhorar ainda mais quando voltar a treinar ao nível do mar.

GE.Net – O Sul-americano será novamente no Pinheiros, onde você já disse que as condições não ajudam muito. Isso pode te atrapalhar muito?
JM – Exatamente por ter um pouco de altitude e a piscina não ser das melhores que eu resolvi fazer um treinamento mais intenso antes do campeonato. Geralmente, quando faço treinamento de altitude (este é o quinto de sua carreira), volto com uma condição aeróbia muito melhor do que se treinasse somente em Recife e isso vai diminuir muito as dificuldades em nadar no Pinheiros. Lógico que não é a situação ideal. Nenhuma seletiva olímpica deveria ser realizada em lugares acima do nível do mar. Tem de ser nas melhores condições possíveis, mas isso é questão política e, infelizmente, os atletas sofrem por isso.

GE.Net – Além do treinamento em altitude, que outras coisas você acrescentou em seu planejamento para obter o índice?
JM – Uma alimentação mais balanceada, porque eu estava acima do peso. Mudei minha parte física, voltei a fazer musculação, e já comecei o ano fazendo séries de medley para melhorar a condição de prova e também a técnica do nado de peito, que tem sido a parte mais fraca da prova pra mim. E também tranquei a faculdade para me dedicar 100% à natação neste semestre.

GE.Net – Quantos quilos você perdeu e quanto está pesando agora?
JM – Aqui não tem balança, mas as calças estão mais folgadas e pelas fotos também estou me vendo mais “fina”. Acredito ter perdido entre 2 e 3 kg.

GE.Net – Você está tentando índice nos 200m e 400m medley?
JM – Mais nos 400m que nos 200m. Sou uma atleta naturalmente fundista, É como se eu ainda não tivesse atingido meu máximo nos 200m, entende? Eu precisaria de mais massa muscular e mais explosão na prova e eu sou mais nadadora de resistência. Mas vou tentar os 200m também, afinal, não tenho a perder não é?

GE.Net – Seu trabalho de musculação tem enfatizado algum grupo muscular mais específico?
JM – Não, é um trabalho de “hipertrofia” e mais de resistência também. Na parte de perna, a gente quer diminuir um pouco a gordura do quadril e da coxa, porque genética é fogo! Tenho que tomar bastante cuidado com isso.

GE.Net – Dá para comparar a tentativa de índice para Atenas com a de agora? Você se sente pressionada?
JM – Nem um pouco. Eu conquistei o índice para Atenas de uma forma tão natural: nadei a final do Pan de 2003, fui bronze e peguei o índice, tudo muito rápido. Acabei não dando o devido valor. Dessa vez, estou tendo de abrir mão de várias coisas pra conseguir. Tô “ralando” mais, é outra situação.

GE.Net – Então, agora vai ser realmente especial, mais valioso, talvez?
JM – Bem mais. Sabe aquela história de que a gente só dá o devido valor a uma coisa quando “perde”? Pois é, é como se agora eu estivesse realmente lutando pelo que quero. Assim é mais gostoso…

GE.Net – Por falar em Pan, o de 2007 parece ter sido um divisor de águas em seu desempenho. Você concorda? O que mudou?
JM – Esse Pan foi muito especial. Muitas pessoas perguntam porque eu fiquei tão satisfeita se não ganhei medalha em prova individual e eu sei porque nunca valorizei tanto a medalha. É lógico que ter ficado em quarto por oito centésimos foi difícil de engolir, mas ali eu sabia que tinha feito meu melhor. Sabia que tinha treinado, que tinha me empenhado e no momento era aquilo que eu merecia. Por isso fiquei muito feliz. A partir dali, vi que dando duro nos treinos e acreditando em mim, toda má fase passa e eu volto a ser o que fui, ou até mais.
GE.Net – Auto-confiança…
JM – Totalmente. Eu sempre treinei muito bem, mas faltava aquele “Q” a mais que era a confiança, a felicidade em estar competindo, e isso, graças a Deus, eu resgatei.

GE.Net – Você encara as Olimpíadas da mesma maneira que antes?
JM – Por enquanto sim, se bem que estou mais disposta a encarar a preparação que antes. Eu era mais “preguiçosa”. Agora, não vou medir esforços pra melhorar minha performance lá. E a concorrência na minha prova também está bem maior, as meninas melhoraram e eu não. Tenho de correr atrás.

GE.Net – Além do Sul-americano, quais outras competições estão no seu calendário?
JM – A última seletiva em maio (Troféu Maria Lenk). A partir daí, preciso esperar se a Confederação vai me dar algum apoio ou vai repetir o Pan e me deixar de fora de todo o programa. Caso isso aconteça, eu e meu técnico já temos um plano B, fazendo outro treino de altitude e competindo, provavelmente, alguma etapa do Mare Nostrum. Para isso, a gente está economizando desde já e procurando patrocínio, porque vai ser muito gasto.

GE.Net – A CBDA (Confederação Brasileira de Desporto Aquático) é assim com todo mundo ou você acha que tem algo pessoal?
JM – Sem dúvidas é pessoal. Pelo menos no ano passado foi. Eu sou atleta do Nikita (o técnico) e ele não recebe nada da CBDA, portanto, fala o que bem entende. Em 2004, eu e ele tivemos problemas e não estávamos mais juntos. Isso foi ótimo para eles porque fiquei “na mão deles”, entende? Mas hoje, é questão de honra mesmo. Depois do que passei, do que o presidente disse a minha mãe e ao meu técnico, que me apóiam incondicionalmente em todos os momentos, eu devo a eles fidelidade e não à Confederação.

GE.Net – O que ele (Coaracy Nunes, presidente da CBDA) falou que te deixou tão irritada?
JM – O que ele disse ao Nikita foi em relação à natação e não me incomodou muito. O dia em que ele discutiu com minha mãe no telefone e culpou a ela pelos meus maus resultados, chegando a se meter em questões financeiras da minha família e questionando a dignidade da minha mãe foi a coisa que mais me doeu. Minha mãe é uma guerreira, leva a família nas costas, era a última pessoa do mundo que merecia escutar isso e, ainda por cima, de uma pessoa que nem a conhece! Podem falar o que quiserem de mim, façam o que quiser, mas não digam nada a respeito da minha mãe. Eu viro bicho, literalmente.

GE.Net – Como você avalia a situação da natação feminina brasileira hoje?
JM – Acho que, de modo geral, está melhor. A natação masculina é o carro chefe e não se pode reclamar. Se eles dão mais resultados, merecem mais espaço, é justo. Mas todo mundo sabe que o apoio podia ser maior até para os meninos. Porque no Brasil, o apoio não é “para a natação” é, na verdade, “para aquele atleta que está bem naquele momento” e para se evoluir tem de ser feito um trabalho a longo prazo e isso não existe no Brasil.

GE.Net – O que falta à modalidade?
JM – Deveria ser feita uma seleção permanente como tem na ginástica artística. Também acho que os critérios de convocação têm de ser sempre os mesmos. Cada vez é um critério diferente de forma que a seleção nunca é a mesma. E, obviamente, um patrocínio constante e não de dez meses. E também acho que os técnicos deveriam ser mais bem pagos pela CBDA.

GE.Net – Pensando na coletividade e não apenas em causa própria…
JM – Eles só recebem 20% do salário dos atletas, que já não é grande coisa. Acho isso um absurdo. O meu técnico nunca recebeu isso, sempre se negou, como forma de protesto, e eu admiro isso nele. Porque o que acontece é que o técnico recebe os 20% e fica preso à Confederação, não tem direito de palavra. Aliás, nunca tem, mas quando recebe tem menos ainda!

GE.Net – Esta polêmica em torno da Rebeca (suspensa preventivamente por doping pela Fina e respondendo a processo de falsidade ideológica na Justiça por ter apresentado amostra de exame com dois DNAs diferentes), isto pode atrapalhar a evolução?
JM – Atrapalha porque se continuar assim, a gente deixa de competir como punição. Ou seja, atletas que não fazem uso disso, pagam pelo erro de outros. Isso é um absurdo. O controle de dopagem tem que ser mais severo, tem muito mais gente. A Rebeca foi só uma e é uma pena que ela pague por isso sozinha. Se fosse feito exame de doping nas categorias de base e nas finais A do Troféu Brasil, acho que, por baixo, dez pessoas seriam pegas.

GE.Net – A situação já está neste nível, desde a base? É assim no mundo todo?
JM – Não sei a respeito do mundo todo, mas não ponho a mão no fogo por ninguém. O que aborrece, por exemplo, é que tem gente que melhora três segundos numa prova de 100 metros em meses e não é testado. Eles testam sempre as mesmas pessoas! Como vão descobrir a origem desse jeito? Acho que não se deveria medir esforços em relação ao esporte limpo. Tem de se utilizar todos os meios porque não é justo com os outros atletas. Quem se omite é mais culpado do que quem se dopa porque, às vezes, você toma um remédio sem saber que tem alguma substência proibida e acaba sua carreira. Nem sempre os atletas que são pegos são “dopados”, às vezes é por acidente. Eu morro de medo, não tomo analgésico sem minha mãe consultar a lista (de proibições). Agora, saber e não fazer nada a respeito é muita covardia.

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